segunda-feira, 8 de maio de 2017

Resende numa noite de maio

A cidade intumesce,
cresce,
ganha e perde espaços.

Fachadas, escadas,
terraços, caminhos
e confusões.

A cidade vai me engolindo,
enquanto durmo.

Sorrisos novos, novos passos,
faróis e pneus, buzinas,
ferros, aços.

À noite, vai se acendendo,
vai se incendiando,
se corroendo.

O céu estrelado testemunha
suas cinzas, seus esquecimentos
e um cachorro infinito
uiva pra lua.

Calçadas vazias,
janelas escuras,
café frio esquecido
sobre uma mesa de centro.

Passeiam, laboriosas
as baratas,
lontras e capivaras
atravessam o rio,
ratos roem o luar.

Cidade, criança órfã,
deixada aos cuidados
de um céu
inacabado.

Suas pontes impedem
que se parta ao meio.
Nas lâmpadas dos postes,
mariposas sussurram
segredos e pecados.

Chora a cidade,
engolindo a todos.
Vomitará cada um de nós,
pela manhã.

Chora, até que dorme.
Cansada.
Seus sonhos
têm cheiro
de dama-da-noite.

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