terça-feira, 21 de março de 2017

Sol poente de outono,
que já nasceu posto,
que se espalha,
feito serragem,
por frestas e fendas,
filtrado
por vidros e grades.

Sol que é mais luz
que calor.
Sol que venta
e traz notícias
dos antepassados
mortos.

Sol que permite
que se olhe pra ele.
Deixa o dia mais azul
e a água mais fria.

Sol que estava
no ponto mais alto do céu,
quando nasci.

Sol que vive, pulsa
e assombra,
que parece menor que é.

Sol dançarino
em evoluções perfeitas,
exortado por poucas nuvens.
Sol que não me fere- e me alivia,
seus bons raios me alcançam
e me jogam além
de qualquer sombra
no coração.

Amo-te, sol. Amo-te, vento.
Enxergo-vos como a dois
bailarinos.
E também dança
minha alma.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Esfinge


À sombra de teu rosto,
o universo se abria,
numa flor translúcida
de infinitas pétalas.

Tudo era penumbra,
quando erguias o rosto
e afrontava as chamas,
pequenas e tremeluzentes.

Teu rosto era um martelo suave,
um machado leve, uma espada,
e cortavas a luz
e o silêncio.

Não falavas, toda eloquência
vinha de teu rosto,
de teus olhos atrevidos,
de teu queixo abusado.

Eras a figura de proa do abismo.
Cataclismo, intempérie,
revoada em busca da primavera,
lançando sombras sobre o outono.

Tu eras a nudez do desejo,
eras a fria fronte de uma estátua
a que o tempo não escarvou,
eras um pavão fotografado.

E eu roçava tua pele com os olhos,
e, com os dedos, te adivinhava,
e alisava teus cabelos,
como quem desnuda a via-láctea.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Vereda Morta



A poesia está acabando
ou se afirmando,
quando os versos se parecem
com versos meus?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre seus olhos
borboletas negras
que me permitem atravessá-la
e entrar no Paraíso.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Faust

Fiz um pacto com o diabo,
pra recuperar a alma
que você tirou de mim.

sábado, 1 de outubro de 2016

Deixe com o Bobo (2007)

Mundo sério

que se encrespa,

se retesa,

que refuga ao som de baque...


mundo tão sério, tão sem mistério,

se põe em guarda, se põe em farda,

espera o ataque...


estende punho (manopla rude)...

entende tudo, tem testemunhas,

esconde as unhas, teme que mude...


...o mundo... o sério.

domingo, 18 de setembro de 2016

O rio
é vítima
de suas próprias margens.