sábado, 31 de maio de 2014

Vigília

Em alta velocidade,
as locomotivas do diabo
fazem estremecer as casas,
deixando na rua um rastro
de fogo, fumaça
e asfalto fundido.

O vento, por sua vez,
cavalga,
gelado e negro
o negro cavalo
da noite sem fim.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

The Kiss

Peito contra peito,
Orfeu e Eurídice se tateiam
na escuridão das duas bocas,
dois infernos que colidem
em expansão.

O Tempo, aprisionado,
deixa de lado a foice,
algoz de nada,
amante da sombra
e do descanso.

Mãos cegas moldam
o barro dos rostos
colados,
mas não os unem.

Quatro olhos se abrem, e a luz
traz de volta o velho mundo.

O Tempo se libertou
e avançou pelas sombras.
Um coração bate acelerado,
o outro é tragado, num átimo,
de volta ao abismo.

Ninguém é testemunha,
quando Sísifo enxuga da testa
as lágrimas do homem
que despenca.

Costas contra costas,
só um de nós dois concebe
o presente
como um presente.





The Kiss, Edward Munch

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Pingente



A minha neguinha


Imersos na luz tênue e indireta
da vasta planície do quarto,
sob a formidável marquise
do teu maxilar,
meus olhos se levantam
e penduram,
em teu pescoço,
um poema de amor.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Torá! Torá!

Se um amor lhe chega no outono,
quando tudo que é morto cai
por terra, e o vento carrega,
pela leveza ou inconstância,
e a cor abandona o campo
e a flor, de precoce, murcha,
que alegria ou promessa vinga
num coração enodado?

Que seiva antiga se agita,
que fome e que sede inimiga
despertam ao caído soldado
em já desertado abandono
e o levam de volta à trincheira,
e o mandam avançar pelas linhas
e buscar a perdida bandeira,
se um amor lhe chega no outono?

Se é morto o que o vento ali varre,
se é certa a derrota, se a fome
não vai encontrar que a mitigue,
Por que é despertado do sono?

E no campo enevoado e impreciso,
esse vento assovia seu aviso,
por que segue, depois de alvejado,
se um amor lhe chega no outono?

segunda-feira, 17 de março de 2014

Declaração universal

Eu te amo.
Te amo, porque você é bonito.
É bonito, forte e inteligente.
Sabe falar, tem gestos leves,
e se porta bem em público.

Eu te amo, porque seu cheiro é bom,
e sabe harmonizar pratos, com vinho.
Gosto da atenção que me dispensa
e tenho tesão nas veias de seus braços.

Eu te amo, porque você tem valores
e princípios que fazem uma boa pessoa,
dessas que você não vê mais por aí.

Te amo, ainda, por seu discurso,
por suas ideias,
por sua preocupação com o mundo
e com um futuro bom pra todos.

Eu te amo, ainda que você esteja
prestes a me ferir com sua raiva,
com seus instintos, com sua irrazão,
e sua frieza de monstro.

Te amo, com minhas tripas em seus dentes,
te amo com beijos a seus murros doídos,
e verto jóias límpidas dos olhos,
pra tributar suas palavras rudes,
seus xingamentos, suas terríveis
e titânicas intempéries.

Eu te amo, porque me abandona,
quando tudo se torna escuro,
e você não quer seu choro exposto,
e sua dor presenciada.

Te amo, e continuarei te amando,
quando tiver razões para massacres,
e banhar o mundo a sangue-frio
e lavar a casa
com o sangue de seus filhos.

Eu te amo, sob a luz fraca e difusa
do beco onde você estupra,
do quarto onde você mantém cativos
e por trás da máscara sórdida
que dá outro rosto a sua bizarrice.

Eu te amo, porque é completo.
Porque traz a mancha da aquarela
e do abate.
Porque tem em si a chave que liberta
e que encarcera.
Porque erra e acerta, porque é bálsamo
e veneno.

Eu te amo por tudo isso,
mas não por aquilo que você é...
e sim pelo que é
verdadeiramente o amor.





sábado, 22 de fevereiro de 2014

Desconsolo

Ao final de tudo, meu bem,
seremos sombras.

Nossos olhares perderão o brilho,
e nossos toques o calor.
Nossos beijos trincarão secos, despetalando.
Nosso sexo sem gozo e estático
será só o peso
sobre o lençol amassado.

Seremos apenas sombras, meu bem.
E o tempo borrará nossas formas,
e deixaremos uma mancha
cinzenta
em sua mão.






(Cupido e Psiquê, Edvard Munch)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Sunset in the Appalachians



Quando me despedi de meu cavalo,
abracei-me ao pescoço dele
e chorei.

Não quis olhar pra trás, pra vê-lo pela última vez,
para vê-lo indo pro sacrifício.

Não queria que ele soubesse
que eu ia morrer.