segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Havia paz, na época dos morros






Menino,
grilo percebia o azul
fora do verde,

a cada salto.


Era assim que sentia
a paz:

via-se o dentro
do lado de fora;

fôlego hiato do chão
ao chão.

A paz existia nele
e seu mundo era a vastidão
do vento no alto dos morros.




sábado, 18 de agosto de 2007

Centro cardeal




Apesar do dia ensolarado lá fora, o blues que toca aqui nas caixas está mais pra mim, assim como o sol lá fora está pros lagartos.

Crossroads, numa versão acústica e instrumental que um amigo gravou. Está em Ré e em Ré acompanho com a gaita algumas frases. Crossroads. As encruzilhadas, aneurismas na estrada, em que o sangue pára seu fluir e se pergunta: por qual caminho?

Nessas horas de encruza, de cessar de passos para não descansar, fico pregado à cruz, relógio parado aguardando corda, corda pendente aguardando pescoço, pescoço cancelado aguardando o grito...


Diabo! Vem buscar minha alma!


Mas o Diabo não existe pra mim. A coisa mais perto dele que concebo sou eu em incorretas horas, em horas pregadas às tábuas sem salvação e sem mandamentos.Sem andamento, semana aumenta o cansaço e o puir das fibras, prenunciando o arrebentar da corda e o âmbar cristalizado das palavras a catapultar-se da boca.Seja qual for o caminho, seja qual for o destino que meus pés de elefante velho escolherem, haverá fossos, muros e sítio, testes ao peso do corpo, ao poder das patas, à pureza e acuidade dos marfins.

Haverá o derradeiro blues, o blues do patíbulo, calvária melodia que acompanha o fel manjar do que está suspenso.



O Diabo, se existisse, estaria agora vestido em branca túnica.
Gravura de Escher: Crossroads

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Moto-perpétuo




Em mim os cavalos não descansam.

sábado, 28 de julho de 2007

Ração


Antes de mais nada, faço isso por teimosia. Propósito eu não tenho, vontade, muito menos. Preencher, preencher e preencher, preencher todo o espaço. Nada me custa, nada me acrescenta, mas não está mais branco...maravilha, está ficando cheio! Palavras, umas ligadas às outras e todas ligadas a nada. Nem a mim. Não é mais branco, não é mais problema meu.

O vazio é fome. Eu lá sou alimento? Tenho, por um acaso, algo que ver com o que está vazio, com o que está faltando? Tome! Farte-se! Encha-se disso até empanzinar-se! Coma, coma, coma, sem sentir o gosto, sem pagar tributo de sabor à língua. Coma sem se nutrir, uma vez que não há metabolismo no vazio. Nenhum processo, reação ou absorção. Coma, vazio inútil, seqüela do que já foi vida, progresso, engenho e civilização. Come! Há de fazer bem o que come, muito embora não seja merecedor. Não adianta, nada adianta se não comer... não é fome o que o põe visível? Não é a única tarefa a que se propõe? Coma! A mim não mutila, menos ainda acalma. Ninguém se chateará ou interromperá o que está fazendo por conta disso. Favor? De jeito nenhum... nem caridade posso dizer que faço. Meu único motor, agora, é a teimosia de querer pratos limpos.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Imóvel


Vontade... vontade é o que não me falta. Pra falar a verdade, sou cheio de vontades e, a cada novo desvencilhar de placenta, saio das cobertas trazendo as velhas vontades e algumas novas.
O tempo das vontades passa de outra forma e dão a sensação da incompetência e da insuficiência. As vontades choram com suas fomes e suas urgências e a morte dorme, sentada à porta, sem se preocupar com as moscas.
Essas vontades se renovam, é certo, na medida em que o tempo não o faz. E tudo, estranhamente, depende dele, mais do que de impulso empreendedor, paixão ou aventura. Certo também é que o tempo é um poderoso aliado a ser conquistado e que o acordo é válido e reconhecido quando reconheço que me tornei paciente.


Isso, em nada, me basta. Eu quero. Eu quero agora, porque existo agora.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Uns olhinhos


Vida. Surpresa atrás de surpresa.

Detrás da primeira surpresa, certa vez, surgiu uma outra, com uma ternura serelepe de quem vê o mundo pela primeira vez. Uns olhinhos muito abertos, um queixo colado a ombros esguios que não os deles, mas também deles. Prescutadores olhinhos, a tudo atentos, a tudo antenas, grandes olhinhos muito imitadores e divertidos que, por essas virtudes, de cara, me conquistaram.

Tais olhinhos que enxergam e sentem longe, eu tive oportunidade de olhar e enxergar de perto, sem vidros ou distâncias impossibilitadoras.

Uma troca de olhares primeiros é uma conversa muito eloqüente para olhinhos e olhões que sentem e que enxergam aquilo que está pisado no chão e no chão que ainda vai. Sim, eles sabem que o chão também anda pelas próprias pernas e conseguem se entusiasmar com isso, com o ensaio de dança que acontece quando o salão está vazio... estão um passo à frente do passo e a isso não resistem, desenham corações coloridos nas janelas, dão cor ao que não tem cor, àquilo que a luz, sem resistência, atravessa. São olhos que tudo vêem e olhos que vêem o nada. Passam a cantar, então, aproveitando-se do eco, o som não pronunciado por ninguém, para espalharem orações banais pelo vazio labirintado de paredes.

Uns olhinhos... umas mínimas galáxias livres de entropia, tragando o desconhecido com familiaridade e festa, fáceis em derrubar muros e construir pontes, operários e demolidores, acertados com aquilo que parece erro a olhos inchados de miopia.

Eu estive perto dos olhinhos, até na hora de ir embora, de correr e deixar que o elástico me puxasse de volta. Eu não pude voltar meus olhões... não pude voltar meus olhos para aquelas pequeninas dádivas redondinhas e vitais, para que se despedissem ou ainda, para que se pedissem... resta, a mim, uma dúvida quadrada e vitral.


Olhinhos que tens olhos para Anjos e para Grilos... sinto, também, ausência

domingo, 3 de junho de 2007

Serviço de quarto


Tão entulhado de nada, desceu da cama e milimetrou o quarto à procura do que largara antes de dormir. Nada em cima da cômoda, nada pendurado na porta do guarda-roupas nem na maçaneta da porta. Nada embaixo da cama, nada camuflando o controle da TV e o celular.
Tudo entulhado de nada, já não era manhã, ainda não era tarde, ainda não era dia. Nada a fazer quanto àquele dia. Dias têm disso, surgem já predispostos, milimetrados por camareiras atentas, antes da hora de acordar.
O inesperado é tão supérfluo quanto rotas são fundamentais.
Galos cantam, sombras escorrem, o tiro é dado e tudo isso é som de klacket.
Nada entulha nada.
Kitchen Maid (Vermeer)