Se um amor lhe chega no outono,
quando tudo que é morto cai
por terra, e o vento carrega,
pela leveza ou inconstância,
e a cor abandona o campo
e a flor, de precoce, murcha,
que alegria ou promessa vinga
num coração enodado?
Que seiva antiga se agita,
que fome e que sede inimiga
despertam ao caído soldado
em já desertado abandono
e o levam de volta à trincheira,
e o mandam avançar pelas linhas
e buscar a perdida bandeira,
se um amor lhe chega no outono?
Se é morto o que o vento ali varre,
se é certa a derrota, se a fome
não vai encontrar que a mitigue,
Por que é despertado do sono?
E no campo enevoado e impreciso,
esse vento assovia seu aviso,
por que segue, depois de alvejado,
se um amor lhe chega no outono?
quinta-feira, 20 de março de 2014
segunda-feira, 17 de março de 2014
Declaração universal
Eu te amo.
Te amo, porque você é bonito.
É bonito, forte e inteligente.
Sabe falar, tem gestos leves,
e se porta bem em público.
Eu te amo, porque seu cheiro é bom,
e sabe harmonizar pratos, com vinho.
Gosto da atenção que me dispensa
e tenho tesão nas veias de seus braços.
Eu te amo, porque você tem valores
e princípios que fazem uma boa pessoa,
dessas que você não vê mais por aí.
Te amo, ainda, por seu discurso,
por suas ideias,
por sua preocupação com o mundo
e com um futuro bom pra todos.
Eu te amo, ainda que você esteja
prestes a me ferir com sua raiva,
com seus instintos, com sua irrazão,
e sua frieza de monstro.
Te amo, com minhas tripas em seus dentes,
te amo com beijos a seus murros doídos,
e verto jóias límpidas dos olhos,
pra tributar suas palavras rudes,
seus xingamentos, suas terríveis
e titânicas intempéries.
Eu te amo, porque me abandona,
quando tudo se torna escuro,
e você não quer seu choro exposto,
e sua dor presenciada.
Te amo, e continuarei te amando,
quando tiver razões para massacres,
e banhar o mundo a sangue-frio
e lavar a casa
com o sangue de seus filhos.
Eu te amo, sob a luz fraca e difusa
do beco onde você estupra,
do quarto onde você mantém cativos
e por trás da máscara sórdida
que dá outro rosto a sua bizarrice.
Eu te amo, porque é completo.
Porque traz a mancha da aquarela
e do abate.
Porque tem em si a chave que liberta
e que encarcera.
Porque erra e acerta, porque é bálsamo
e veneno.
Eu te amo por tudo isso,
mas não por aquilo que você é...
e sim pelo que é
verdadeiramente o amor.
Te amo, porque você é bonito.
É bonito, forte e inteligente.
Sabe falar, tem gestos leves,
e se porta bem em público.
Eu te amo, porque seu cheiro é bom,
e sabe harmonizar pratos, com vinho.
Gosto da atenção que me dispensa
e tenho tesão nas veias de seus braços.
Eu te amo, porque você tem valores
e princípios que fazem uma boa pessoa,
dessas que você não vê mais por aí.
Te amo, ainda, por seu discurso,
por suas ideias,
por sua preocupação com o mundo
e com um futuro bom pra todos.
Eu te amo, ainda que você esteja
prestes a me ferir com sua raiva,
com seus instintos, com sua irrazão,
e sua frieza de monstro.
Te amo, com minhas tripas em seus dentes,
te amo com beijos a seus murros doídos,
e verto jóias límpidas dos olhos,
pra tributar suas palavras rudes,
seus xingamentos, suas terríveis
e titânicas intempéries.
Eu te amo, porque me abandona,
quando tudo se torna escuro,
e você não quer seu choro exposto,
e sua dor presenciada.
Te amo, e continuarei te amando,
quando tiver razões para massacres,
e banhar o mundo a sangue-frio
e lavar a casa
com o sangue de seus filhos.
Eu te amo, sob a luz fraca e difusa
do beco onde você estupra,
do quarto onde você mantém cativos
e por trás da máscara sórdida
que dá outro rosto a sua bizarrice.
Eu te amo, porque é completo.
Porque traz a mancha da aquarela
e do abate.
Porque tem em si a chave que liberta
e que encarcera.
Porque erra e acerta, porque é bálsamo
e veneno.
Eu te amo por tudo isso,
mas não por aquilo que você é...
e sim pelo que é
verdadeiramente o amor.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Desconsolo
Ao final de tudo, meu bem,
seremos sombras.
Nossos olhares perderão o brilho,
e nossos toques o calor.
Nossos beijos trincarão secos, despetalando.
Nosso sexo sem gozo e estático
será só o peso
sobre o lençol amassado.
Seremos apenas sombras, meu bem.
E o tempo borrará nossas formas,
e deixaremos uma mancha
cinzenta
em sua mão.
seremos sombras.
Nossos olhares perderão o brilho,
e nossos toques o calor.
Nossos beijos trincarão secos, despetalando.
Nosso sexo sem gozo e estático
será só o peso
sobre o lençol amassado.
Seremos apenas sombras, meu bem.
E o tempo borrará nossas formas,
e deixaremos uma mancha
cinzenta
em sua mão.
(Cupido e Psiquê, Edvard Munch)
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Sunset in the Appalachians
Quando me despedi de meu cavalo,
abracei-me ao pescoço dele
e chorei.
Não quis olhar pra trás, pra vê-lo pela última vez,
para vê-lo indo pro sacrifício.
Não queria que ele soubesse
que eu ia morrer.
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
All in
Os peixes e caranguejos
descarnaram a minha mão submersa.
Entre os ossos dos meus dedos
ainda seguro
um four de ases.
descarnaram a minha mão submersa.
Entre os ossos dos meus dedos
ainda seguro
um four de ases.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Nihilema
As primitivas vogais
guturam
do ar alto e aberto
à furna profunda e escura
e minha voz não está com elas.
Transitam, solertes,
consoantes várias,
umas diretas, esmurrantes,
aríetes contra o silêncio,
outras ressentidas, magoadas,
temerosas diante do mar
e do infinito.
Há ainda as que estalam, as que sussurram,
ninfas de som, escondidas e risonhas
nos intervalos e meandros da palavra.
Há, porém, em minha voz,
um som que ninguém jamais ouviu.
Um som não catalogado, não grafado,
que a ninguém estimula, e que morrerá comigo.
Um som que veio antes de tudo, junto com o Verbo,
e que se refugiou em mim, fugindo da Luz.
Um som que protejo com a vida, e que pulsa,
quando ninguém está por perto,
e que é capaz de milagres,
que se transubstancia e transfigura,
que vai morrer de velho e de sábio,
tendo escapado da estrela
e da cruz.
guturam
do ar alto e aberto
à furna profunda e escura
e minha voz não está com elas.
Transitam, solertes,
consoantes várias,
umas diretas, esmurrantes,
aríetes contra o silêncio,
outras ressentidas, magoadas,
temerosas diante do mar
e do infinito.
Há ainda as que estalam, as que sussurram,
ninfas de som, escondidas e risonhas
nos intervalos e meandros da palavra.
Há, porém, em minha voz,
um som que ninguém jamais ouviu.
Um som não catalogado, não grafado,
que a ninguém estimula, e que morrerá comigo.
Um som que veio antes de tudo, junto com o Verbo,
e que se refugiou em mim, fugindo da Luz.
Um som que protejo com a vida, e que pulsa,
quando ninguém está por perto,
e que é capaz de milagres,
que se transubstancia e transfigura,
que vai morrer de velho e de sábio,
tendo escapado da estrela
e da cruz.
Cronos Maieuta
Suada, os dentes rilhando,
agarrada aos lençóis,
gemendo, de pernas abertas,
e por fim,
gritando.
Reia pariu doze gozos
e eu devorei a todos.
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