Faz, sei lá, sete anos que este blog existe, e eu nunca havia cogitado postar algo de outra autoria aqui. Mas arrematei este quadro, profundo e exato auto-retrato meu, pintado pela mão da maior poetisa viva que conheço, e que agora exponho na acarpetada parede carmesim deste labirinto.
Eu não sei por que te amo.
Acho que por uma dessas belezas tão cruéis quanto incalculáveis
(As que nomeiam as genialidades das estrelas).
Deus colocou sua mão de ouro em minha carne e todos os ecumenismos nasceram de meu ventre. Porque te amo.
Não sei ainda por que meu coração bate na língua de uma criança ou na espinha dorsal de uma orquestra quando penso que te amo.
Não sei por que o esquecimento não me adormece aos sábados.
Nem por que minha sombra dança tambores quando me aprisiona a rotina e lembro que te amo.
Eu não sei por que não me morre esse fragmento de vida insolúvel, que é amar-te.
Nem por que não me envelhecem meninos, nessa festa infinita que é meu rosto a poucos centímetros dos teus abismos.
Só sei que te amo, apenas e apesar. Desde então, todo o inexplicável repousa no colo das mães e dos dias.
Não sei quando molho a terra com tua sede ou quando apaziguo soldados com tua fúria de homem.
Nem mesmo quando desescrevo diários ou desinvento futuros por teu egoísmo, a quem escolhi chamar esperança.
Desesperam-me auroras, desencorajam-me flores e outras fêmeas perturbações sacerdotisam minha espera.
Não sei por que te amo.
Por que não me perdoo por um orvalho, uma Lua, um girassol.
Por que me condenei a assentar séculos sob a memória de instantes – como Orixás e seus códigos.
Não sei por que te amo,
Mas sei que verbos me doam e galáxias me assombram em teu nome.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Cama de gato
Crianças invisíveis
despertam,
assim que nos abraçamos
e dormimos.
E brincam ao nosso redor.
Iluminadas apenas
por um acorde
de velas acesas.
Não as vemos, quando acordamos.
Só sabemos que estiveram aqui,
porque teceram emaranhados
com nossos dedos
entrelaçados.
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Sátiro enamorado se acobarda e entoa um blues
De longe
vejo ela
e só a vejo.
E,
de longe,
o menino que fui,
sorri,
e se arruma,
se perfuma,
cata flores dispersas
de várias cores,
faz um buquê,
e vem assoviando,
pelo caminho.
Ela não se dá conta,
e se dá, não diz,
de que, quando eu me chego
e aceno, ou cumprimento,
e pergunto como está a vida,
se está tudo bem,
se está feliz,
é o menino quem o faz
através de mim.
Mas o menino,
confiante e corajoso,
caminha pelo tempo,
e nunca vai chegar
até aqui.
Então não consigo dizer
como eu a quero, como eu a sonho,
e que, dessa maneira,
eu sempre fiz
e sempre quis.
E fico aqui,
e ela lá,
e de longe,
de bem muito longe
o menino
tenta me alcançar.
vejo ela
e só a vejo.
E,
de longe,
o menino que fui,
sorri,
e se arruma,
se perfuma,
cata flores dispersas
de várias cores,
faz um buquê,
e vem assoviando,
pelo caminho.
Ela não se dá conta,
e se dá, não diz,
de que, quando eu me chego
e aceno, ou cumprimento,
e pergunto como está a vida,
se está tudo bem,
se está feliz,
é o menino quem o faz
através de mim.
Mas o menino,
confiante e corajoso,
caminha pelo tempo,
e nunca vai chegar
até aqui.
Então não consigo dizer
como eu a quero, como eu a sonho,
e que, dessa maneira,
eu sempre fiz
e sempre quis.
E fico aqui,
e ela lá,
e de longe,
de bem muito longe
o menino
tenta me alcançar.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
sexta-feira, 13 de junho de 2014
A face real
O espelho é o melhor amigo do homem. Mais fiel que o cão, mais acolhedor que a mãe, mais pontual que o sol e mais sincero que a verdade. É através dele que despimos as máscaras, que descobrimos cicatrizes, feridas e marcas do tempo, dos excessos e também das faltas. Um espelho nunca mente, nunca exagera, nunca poupa e nunca distrai. Somente o espelho é capaz de dizer, sem rodeios, aquilo que é preferível não ouvir, ou o que seria melhor não enxergar. Ele não deixa possibilidade de fuga ou dúvida, nem oferece alternativas à realidade. É o espelho linear, opositor, cristalino, quem tira o homem de nirvanas etéreos e o traz de volta ao apocalipse bruto e cruel de sua condição. Os homens deveriam adorar os espelhos, como fazem com deuses e heróis. Adorar por, em sua lucidez de lâmina fria, dimensionar a nudez fatídica de quem quer que vá até eles, afugentando o medo e a ilusão de que nenhum de nós está sozinho.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Beleza Borrada
A sombra, não a imagem inteira.
O que não tem contraste por não ter contornos.
Um índice, um sussurro apenas.
Eu só saio em busca
do que parece que está lá.
Do que penso que está lá.
Seja lá o que for.
Seja onde for lá.
Se parece que me chama.
Se parece que me quer.
Eu vou.
E só me entrego
ao que é inexato.
Amar é uma questão de fé.
Fé que tenho nos enganos do meu corpo.
Crença em lendas e confabulações.
Meu amor é do tempo em que os homens
aprendiam dos animais.
E, por conta disso, já não encontra
sabedoria nos mais velhos.
Porque é preciso ser
muito velho, mais que antigo,
pra eu compreender e aceitar como certo
o que me dizem.
Vou em busca dos trechos perdidos
riscados e cortados
da versão final de quem eu amo.
Procuro, entre o que está escrito, o que foi apagado.
O ímpeto, o baixo-relevo invisível.
Tudo que preciso encontrar é a ignição
Reverter a cinza em fogo
e finalmente, o fogo em faísca.
É na centelha
que reside meu desejo.
É no atrito primevo,
que termina
minha busca.
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