quinta-feira, 24 de julho de 2008

Súbito


Abre o firmamento

em uma chuva de rosas...


De onde eu venho,

nascemos com signos

na testa.

Tudo mais é tatuagem

e sai com água.


Recolho do chão

as gotas da chuva perfumada e

entrego à primeira mulher do mundo.


Ela cinge o buquê no peito descoberto

e cola a testa à minha testa.

(assim, pode ler

o que está na dedicatória)

sábado, 12 de julho de 2008

Ao Bom Pastor


Cuida da areia, agora.
Dá-lhe sabor, canta pra que ela durma.
Deixa que ela se acaricie entre os teus dedos,
cata as conchas que a parasitam.

Não deixa que a morte dela se alimente,
não descuida da unidade de seus grãos
nem do peso de seus grãos.

Há a areia, há tu
e há a eternidade.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Arrebentado


Estar numa ponta,
no viés separado
do resto.

Percorrer, percorrer, a linha
o único caminho existente,
a única via definida.

Até o fim, até o meio,
até o começo...



... estar na outra ponta.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sem nós


Então, meu bem... é isso. Não se sabe o que é, mas é isso e isso é o que é: eu por aqui, você por aí, eu por mim, você por si e assim volta-se à trajetória incial da inércia. Você, com seus afazeres e eu com os meus a fazer.
Eu aqui, você aí e um mundo maravilhoso e promissor à nossa volta. Estancados, amputados e libertos. Sem peso, sem culpa. Abandonados à sorte, pra minha e sua sorte, pra sorte de quem virá em seguida. Sim, meu bem, vive-se num celeiro de outros, é-se os outros e há outra pessoa em mim e em você. Pessoas. Um monte. Um monte de.
Veio-se bem, até certo ponto. Ainda brilhava. Ainda pulsava, mas, agora, dormiu de vez. Voltou pro túmulo, cansado, suicidado. Mas, veio-se bem até.
Mundo maravilhoso esta terra em que se pisa. Promessas, promessas, oportunidades e força. Uma mão amiga a cada esquina, um sorriso de dentes lindos e brancos a cada olhar. Será mais fácil do que se pensa.
Irrelevemo-nos.
Não tem receita, mas em se criando um calo, a farpa é absorvida e assimilada pelas células. Não se coça o local.
Não se sopra a brasa e ela vira carvão. O vento é inimigo do diamante e precisa-se, agora de dureza e transparência. A melhor saída é a invulnerabilidade e a melhor solução é não ser pedra no próprio sapato.
Por aqui e por aí, desiste-se. Dói, maltrata, mas assim é a vida. O amor é um deus alienado. A dor, uma criada devotada. Fica-se com a vontade, mas essa passa, arrefece, procura outro objeto, encontra e quer outra vez. Querer a mesma coisa em outra coisa. Aprendizado.
Deixa-se, agora, o nunca entrar em casa, recebido com angústia reverente. Um médico de família.
Vou, vai, não vamos mais. Sou, é, não somos mais.
Que assim seja.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Prece a Nemesis


A Ti, mais justa e bela Vingadora,
Espada sábia, Deusa-Maestrina,
Eu ergo a voz em chamas nesta aurora,
Eu clamo a Tua presença em minha sina.

Filha da Noite, atenta ao que, lá fora,
Rasteja além do alcance à minha retina:
O verme que meu coração devora
Abraça o meu Amor em vil neblina.

Eu rogo a Ti que cortes os seus braços,
Que a máscara vilã quebre em pedaços,
Ao destro golpe por Ti desferido...

Que meu Amor enxergue em tais abraços
A teia em que meu coração, nos laços,
Debate-se, em vão, pra não ser comido.

quarta-feira, 2 de abril de 2008