sábado, 4 de fevereiro de 2017

Esfinge


À sombra de teu rosto,
o universo se abria,
numa flor translúcida
de infinitas pétalas.

Tudo era penumbra,
quando erguias o rosto
e afrontavas as chamas,
pequenas e tremeluzentes.

Teu rosto era um martelo suave,
um machado leve, uma espada,
e cortavas a luz
e o silêncio.

Não falavas, toda eloquência
vinha de teu rosto,
de teus olhos atrevidos,
de teu queixo abusado.

Eras a figura de proa do abismo.
Cataclismo, intempérie,
revoada em busca da primavera,
lançando sombras sobre o outono.

Tu eras a nudez do desejo,
eras a fria fronte de uma estátua
a que o tempo não escarvou,
eras um pavão fotografado.

E eu roçava tua pele com os olhos,
e, com os dedos, te adivinhava,
e alisava teus cabelos,
como quem desnuda a via-láctea.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Vereda Morta



A poesia está acabando
ou se afirmando,
quando os versos se parecem
com versos meus?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sobre seus olhos
borboletas negras
que me permitem atravessá-la
e entrar no Paraíso.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Faust

Fiz um pacto com o diabo,
pra recuperar a alma
que você tirou de mim.

sábado, 1 de outubro de 2016

Deixe com o Bobo (2007)

Mundo sério

que se encrespa,

se retesa,

que refuga ao som de baque...


mundo tão sério, tão sem mistério,

se põe em guarda, se põe em farda,

espera o ataque...


estende punho (manopla rude)...

entende tudo, tem testemunhas,

esconde as unhas, teme que mude...


...o mundo... o sério.

domingo, 18 de setembro de 2016

O rio
é vítima
de suas próprias margens.

domingo, 4 de setembro de 2016

Famélico



Tenho,
por ti,
esta fome,
que não dói
nem incomoda.

É uma fome alquimista,
que traz fórmulas secretas
de ligas perfeitas,
de ouro destilado.

Fome de comer,
no seu corpo
as frutas de toda estação.

Eu te olho de longe,
e com fome,
fome isquêmica
que me causa
paralisias
e tremores.

Fome suicida,
que quer muito morrer,
mas que quer ser sentida.