sexta-feira, 7 de maio de 2010

Narciso

"...And the things she put faith in are ripples just waving her by..."

(Gentle Giant)




Olha para o relógio e é assaltado daquele preenchimento que vem com as iminências, por ver que os ponteiros puxam o centro, um pra cima, o outro pra baixo.
Já de chapéu, desce a estreita escadaria do jornal e entra no fim da tarde. Acende um cigarro, debaixo da marquise. Um sanduíche humano atravessa a rua rápido, e vem se abrigar da chuva a seu lado. Tem cara de peruano ou qualquer desses pós-pré-colombianos que se cansaram de tocar flauta.
A chuva de verão, sol e gotas doces, traz a ele lembranças da infância, passada entre brejos e estradas de saibro, no interior. As brincadeiras e os banhos de calha e os esporros da mãe, quando voltava pra casa. Mais uma vez, ele está na cidade em que nasceu, chutando água das poças do pátio da igreja nos amigos, correndo de bicicleta na chuva, pintando nas costas um jato de lama. A chuva não está tão forte e tudo à frente é um mosaico brilhante, glorioso e colorido de imagens vindas do céu. Chuva boa, de um céu bom, trazendo natureza a ele, rara e distante, nesses dias.
Põe-se a atravessar a rua, sentindo-se mais leve, mais sutil à medida em que as roupas se molham. Os bigodes e as sobrancelhas descem-lhe do rosto, tinta derramada, vai perdendo todos os pelos do corpo. A ponta do nariz pinga nos lábios, que escorrem pelo peito. Afluem para lá também os olhos, em lágrimas borradas e os dentes deslizam e gotejam, feito velas acesas. Os dedos se fundem num só curso, em cada uma das mãos, como enfiadas em mangas de suéter compridas demais.
Alcança o outro lado, mas não transpõe o meio-fio, represo. Estende-se, abrangente, e pés chapinham no que era, há pouco, a barriga. Deslizam, por ele e com ele, papéis de bala, guimbas de cigarro, sonhos de menino e nenhum barco de papel. Vertigem.
A tarde se despede em brilho, do alto do bueiro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Cio repentino de outono



Se me queres feliz,
realmente feliz,
traz-me figos
em calda, secos
ou na carne da fruta.

Traz
a minha boca
a polpa macia e melada,
aos dentes, o gostoso estalido
das sementes.

Traz-me figos,
se me queres feliz.
Se me queres contente,
ensopa meus lábios
de figos.

Traz-me figos no corpo-
joga-os ao chão e deita sobre eles,
convulsa, réptil, sibila,
esmaga-os entre os dedos,
aperta-os contra os peitos, entre as coxas,
enfia-te dos figos, enfia-os também na boca...
e traz-me-os.

Se me queres feliz,
impregna deles o sol. Traz
a manhã perfumada
da cica dos figos.

Se me queres,
feliz,
traz-me figos.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Escrever sobre o que escrevo
não é escrever o que escrevo.
É antes, não ter
o que escrever.

Eu escrevo hoje à míngua,
difícil,
ultrapassado,
atropelado no ofício.

A escrita se tira da vida,
e a vida, de onde se tira?
A vida se tira da escrita
e se acrescenta a fome, já aflita.

Escreve-o sem o vive-o,
horrível
desnível
Drenagem de tinta já velha,
Chove e desce pela calha
da casa que é só telha.

Centelha
fricção da pedra na pedra
calo no dedo da perda.
Perdido de si, o poeta
faz ponte entre as margens
sem rio.

Viver sobre o que escrevo
não é escrever sobre o que eu vivo.
Vivo... mas não vivo.
Respiro ar sem movimento,
virando as páginas
rápidas
brancas
da vida ausente no livro.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Barcarola náufraga


Lua
descendo
reflete

Miroir na praia.


Pedra
onde ondas
defletem

Meu roer, na praia.


Foz:
um rio
me repete:

Vou morrer na praia.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Hiato

Hoje, hiato dinâmico, bolsa intravenosa de vazio, jangado no próprio sangue, bonito quando amanhece, flutuo. Tenho a beleza das ruínas venerandas e a sabedoria inútil da mudez de um bebê: se não choro, ninguém se lembra. Se não me dói, não choro. Dor e lembrança não riscam mais a fúria do céu ensolarado. Manhã na alma e descanso no corpo, guardião fatigado. Há, em mim, a marca, o desabrigo e o cansaço. Mas o silêncio me traz felicidade e norteio-me por não ter vontades.

Sorria, quando eu chegar, meu destino... para que eu saiba que cheguei.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Estudo para um beijo, de Magritte


Parece um baile de máscaras, mas sabemos quem somos. Melhor dizendo:
você sabe quem eu sou e eu sei quem você é. E só.
Mais que isso, é o que se constrói, no escuro.
"Eu vim torcendo pra te/não te encontrar"+"eu não sabia se era admiração ou (unff)" e o mundo freia, xinga e joga dois através do parabrisas. Two more for the road.
Coisa surda essa... coisa de cantos e sombras. Pode nem sequer falar,
essa coisa. Nem se quer falar.
Por onde anda você não sei. A pista de dança é enorme... e é muito
fácil se perder onde as coisas são coisas sem nome, sem face e sem
nomear. Silêncio de pausas em meio à dança, um pra lá, um pra cá, um
pra lá, um pra cá. Nós não sabemos dançar.
Seria mais fácil, mesmo sendo difícil... seria mais fácil, não fosse o
que é. Não fosse a coisa: meu cismar sombrio, clandestino, minha
dedicação porca à causa e total à consequência (minha incapacidade com
os canteiros de amor-perfeito... eles sempre secam logo depois que os
planto), a coisa certa na hora errada. Mundo descompassado da porra.
Falta de ver a escova passando pelos cabelos negros, pretos, pretos,
muito pretos... a imagem da mulher nua e seu violoncelo. Falta da boca
rindo dentro da minha boca rindo, falta de rir do destaque da voz, de
procurar os olhos, de procurar e achar os olhos, das perguntas que
precisam de reforço pra se tornarem perguntas completas, pra que eu
possa dar respostas inteiras.
Eu não devia dizer essas coisas. Eu nem posso dizê-las. Mas eu sei
quem você é e você sabe quem eu sou.