domingo, 31 de agosto de 2008

Muriliano ou Do Mensageiro-Consorte


Hoje, encontrei-a

na penumbra da tarde,

no último sinal de um barco.


Um veleiro, ponto embandeirado,

marco do longe, já limpo da areia,

acenando a busca-

perdida terra prometida.


"Teus pés, donzela arredia,

não devem tocar terra firme,

não devem perder-se da tarde.


Desfolha as nuvens, canta acima... acende todos os teus faróis:

Teu senhor está vindo nas águas

(Traz jóias e tigres no peito)".
Paul Klee, The Departure of the Ships

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Cartografia do despertar


Do velado sono,
sincero abandono,
às paredes brancas
(perfume nas sancas),

acordo contigo
-no abraço, o abrigo-
e a águas tranqüilas
conduzem-me
as tuas pupilas.
Two artists in the desert, Mauricio Bouzas Gasque

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Súbito


Abre o firmamento

em uma chuva de rosas...


De onde eu venho,

nascemos com signos

na testa.

Tudo mais é tatuagem

e sai com água.


Recolho do chão

as gotas da chuva perfumada e

entrego à primeira mulher do mundo.


Ela cinge o buquê no peito descoberto

e cola a testa à minha testa.

(assim, pode ler

o que está na dedicatória)

sábado, 12 de julho de 2008

Ao Bom Pastor


Cuida da areia, agora.
Dá-lhe sabor, canta pra que ela durma.
Deixa que ela se acaricie entre os teus dedos,
cata as conchas que a parasitam.

Não deixa que a morte dela se alimente,
não descuida da unidade de seus grãos
nem do peso de seus grãos.

Há a areia, há tu
e há a eternidade.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Arrebentado


Estar numa ponta,
no viés separado
do resto.

Percorrer, percorrer, a linha
o único caminho existente,
a única via definida.

Até o fim, até o meio,
até o começo...



... estar na outra ponta.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sem nós


Então, meu bem... é isso. Não se sabe o que é, mas é isso e isso é o que é: eu por aqui, você por aí, eu por mim, você por si e assim volta-se à trajetória incial da inércia. Você, com seus afazeres e eu com os meus a fazer.
Eu aqui, você aí e um mundo maravilhoso e promissor à nossa volta. Estancados, amputados e libertos. Sem peso, sem culpa. Abandonados à sorte, pra minha e sua sorte, pra sorte de quem virá em seguida. Sim, meu bem, vive-se num celeiro de outros, é-se os outros e há outra pessoa em mim e em você. Pessoas. Um monte. Um monte de.
Veio-se bem, até certo ponto. Ainda brilhava. Ainda pulsava, mas, agora, dormiu de vez. Voltou pro túmulo, cansado, suicidado. Mas, veio-se bem até.
Mundo maravilhoso esta terra em que se pisa. Promessas, promessas, oportunidades e força. Uma mão amiga a cada esquina, um sorriso de dentes lindos e brancos a cada olhar. Será mais fácil do que se pensa.
Irrelevemo-nos.
Não tem receita, mas em se criando um calo, a farpa é absorvida e assimilada pelas células. Não se coça o local.
Não se sopra a brasa e ela vira carvão. O vento é inimigo do diamante e precisa-se, agora de dureza e transparência. A melhor saída é a invulnerabilidade e a melhor solução é não ser pedra no próprio sapato.
Por aqui e por aí, desiste-se. Dói, maltrata, mas assim é a vida. O amor é um deus alienado. A dor, uma criada devotada. Fica-se com a vontade, mas essa passa, arrefece, procura outro objeto, encontra e quer outra vez. Querer a mesma coisa em outra coisa. Aprendizado.
Deixa-se, agora, o nunca entrar em casa, recebido com angústia reverente. Um médico de família.
Vou, vai, não vamos mais. Sou, é, não somos mais.
Que assim seja.

terça-feira, 15 de abril de 2008