segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Serial Loser
e, sobre a mesa, deixo a escritura da casa.
Sempre de malas prontas, pronto pra qualquer viagem
de volta.
Quixote, de pés e dentes puídos,
os moinhos me dilaceram, as ovelhas me mordem.
À mosca, não ponho medo, nem apetite.
Navegante interminável
dos naufrágios próprios,
sobrevivente das próprias ilusões,
empurrado da prancha das alheias.
Um ponto perdido no mar, entre balões,
tentando derreter geleiras.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Entre dois pontos
Tudo indo. Nem bem nem mal, mas indo. Quando é assim, é quase uma modéstia de indo mal, mas no fim das contas, fica mesmo indo.
Apesar de as janelas mostrarem sempre a mesma coisa, sem movimento nem nuances, é onde meu olhar se concentra, nos trajetos. De noite, consigo ver um pouco do meu rosto, incorporado àquilo. Uma coisa e outra chamam atenção, às vezes. Algo no céu, mulheres bonitas, o rio e a serra na ponte, os flashes de conversa e os semblantes puídos da gente daqui. Mas, sutilmente, eu tentava captar a mulher, com visão periférica, mais inclinado ao interior do ônibus.
Ficamos um pouco encostados um no outro, eu e a moça. Um ponto no meu braço, outro na minha perna. Os braços, não há como desencostá-los, mas a perna poderia ser recuada. Não foi, a minha nem a dela. E tudo assim... o ônibus, as velhas, os outros passageiros, a paisagem mesma e sem nuances. A moça e eu, indo, colados por dois pontos sem reticências nem final. Quase (muito quase) modéstia de reticência, mais ainda, de travessão. Um calor trocado, sem alternativa, dois pontos de contato espontâneo, que o acaso imprimia no tudo que ia. Nenhuma vontade, nenhuma tensão.
Apenas aquela versão inédita de misericórdia, passando entre os tecidos da minha pele e de sua blusa, e de nossas calças. Uma pietá mútua, singela e osmótica, de que talvez ela também se tenha dado conta. Fomos indo, através da noite, atrelados ali, laquéticos, mas em frouxidão. Um carinho morno de poros amassados e pontas de nervos, fagulhando sinapses naquela escuridão que jamais nos abandona.
Emproei-me, para solicitar a parada, apertando o interruptor do acaso, deixando, naquele ponto, seu fio e sua meada, e seguir com o meu e a minha.
Ela girou no assento, abrindo caminho.
Obrigado.
Indo na direção da porta, olhei pra seu rosto. Baixo, concentrado nas mãos cruzadas sobre as pernas, agora bem juntas e centradas. Olhos cansados ou tristes. Era bonita.
Saltei.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Avoengo
Tive contato com minhas duas avós (com a materna mais que com a paterna – não sei se é regra, mas sempre há uma avó preterida, ou mais distante que a outra). Minha avó paterna tinha nome de ópera, mas não era tosca (poucos risos, por caridade). Escrevia poemas, fazia doces e dividia meu avô com umas 4 ou 5 mulheres da cidade (além de ter substituído a irmã, como esposa de meu avô, quando esta morreu). Nas últimas visitas, sempre me chamava ao quarto e me dava dinheiro ‘pra comprar balas, que Deus faça de você um homem de bem’.
Minha avó materna era o catiço: tinha nome de cocotte francesa, destratava os empregados e as visitas, mijava pernas abaixo, quando havia tempestades, mantinha um corte de cabelo hendrixiano, recebia entidades de Umbanda e me ensinou a gostar de tangos, seresta e quase todo tipo de comida gorda, mormente massas. Tenho uma saudade enorme dela, uma das poucas pessoas de minha família capaz de catarses imprevisíveis.
Eu me lembro de várias anedotas que ela protagonizara, mas a que me vem à mente, de imediato, ocorreu quando eu lhe perguntei, muito menino, o que eram hemorróidas. Ela, de perna cruzada, sentada na varanda do sítio, tragou lindamente seu Free (fumava com classe de cocotte francesa) e respondeu, olhando pro infinito:
Hemorróidas são varizes no cu.
No dia em que eu destruir minha cidade (derramando indutor de cio nos reservatórios e explodindo, sincronicamente, os postos de gasolina), eu tenho certeza de que me lembrarei dela.