quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

À guisa de prefácio

Nos lábios, no encalço do escuro, o pendente tremor...
enforcou palavras como sinal de poder. Exibiu os troféus de sangue, mantendo o medo, mantendo distância segura.
Dali pra frente, guardaria no bolso direito a próxima bala, sentença sem volta, garantia de não.
Olhou para os dois lados e atravessou a rua. Um míssil passou a poucos centímetros de sua testa e caiu no chão, sem explosão. Riu. Abriu o zíper e mijou na bomba, fez fumaça, guardou a peça sem chacoalhar e não mais voltaria correndo pra casa, toda vez que coisa semelhante acontecesse.
Ateou fogo em tudo o que trouxesse voz a seu alívio e foi morar com primatas.

sábado, 27 de dezembro de 2008

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Nem isto nem isso nem aquilo (muito menos aquilo outro)

Laço a noite
pelo pé de apoio... uivo
e cães da noite se me irmanam.

Tateio as chaves
entre as frestas do chão,
fendas que passos
nunca.

Aí está o segredo: poesia do incomunicável!
Construção em letras minúsculas, em letras
rídiculas, em suma ,
ponte que leva a todo lugar.
Do que tem sentido por não ter explicação.

Uivo... a noite é minha refém.
Lança sobre mim as tuas bençãos, cro-magnon.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Oráculo

Num tremor de rosa
em que se pousa
a mão, um beijo-inseto,
uma extraviada gota;

num abalar de ponte,
em que se passa
despercebido, prestes
a ser reconhecido;

num balançar de pedra
que se desloca
amanhecida
por vento em precipício...

repete o homem
(que escuta as sibilas)
as sílabas do teu nome.

domingo, 21 de setembro de 2008

Louvor Tardio


Primavera de folhas,
ocaso de cinéreas,
a estação do luto e da bonança-

foram-se outros hinos,
ficou a mesma glória.

Os últimos náufragos
resgatados da ilha
despedem-se do vento.

O bom vento que os levará embora.
Gravura de FoolAna

domingo, 31 de agosto de 2008

Muriliano ou Do Mensageiro-Consorte


Hoje, encontrei-a

na penumbra da tarde,

no último sinal de um barco.


Um veleiro, ponto embandeirado,

marco do longe, já limpo da areia,

acenando a busca-

perdida terra prometida.


"Teus pés, donzela arredia,

não devem tocar terra firme,

não devem perder-se da tarde.


Desfolha as nuvens, canta acima... acende todos os teus faróis:

Teu senhor está vindo nas águas

(Traz jóias e tigres no peito)".
Paul Klee, The Departure of the Ships

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Cartografia do despertar


Do velado sono,
sincero abandono,
às paredes brancas
(perfume nas sancas),

acordo contigo
-no abraço, o abrigo-
e a águas tranqüilas
conduzem-me
as tuas pupilas.
Two artists in the desert, Mauricio Bouzas Gasque