segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Página arrancada


No fundo dos olhos,
impressa
a imagem rápida da ventania.

Blocos surdos,
poses tortas...
vazio que alimenta o oco.

Perdido, após o brilho-
buscando latitudes no Sol.

"Não há nada a temer"
Me diz o irmão que não tive.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Salmo I


Absorção
de mucos e nêspera
na espera, na música,
no suco.

Bebe, e lambe o que bebe...
sabor por sabor em conta-gotas.

Aspereza...
óleo santo que destila
ao novo ritmo-
nova liturgia
que ecoa nas paredes
do templo antigo.

Canta, e lambe o que canta...
notas esparsas- claves
chovidas nos cantos
da boca.
Portrait with Red Berries, James C. Christensen

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Margem minha


Meu pai era um nadador e tanto. Para o corpo e rosto peludos, se desenvolvia muito bem, especialmente em correntezas. Para pular na água, principalmente depois de almoçar e quando havia sol alto, persignava o "molha sempre a nuca e os pulsos antes de entrar" e pulava, flecha ombruda, de ponta. Submergia e aparecia em algum ponto destoado da lâmina, flor eriçada d'água, cabelo no olho e gotas na barba. Bufava, libertando os pulmões do ar, com grande alarme, e tampava a bracejar, com não maior silêncio. Eram três moleques: O Pirapitinga, meu pai e eu. Trifonte da juventude, numa estampa cuja perspectiva está em meus olhos, pessoal e intransferível santíssima trindade. Há dois anos que o Pirapitinga se secou de meu pai. Hoje, só há uma margem no rio.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

O homem do lado de fora


Sem medo de rua ou fome, traçante ser vivente pedaços de si deixa, deixa e assim vai se deixando. Inteiro ninguém o vira nem viria e não há espelho para. Quem se dele chama atenção, vê menos que corpo, não-decomposição mas urgência e rota.
No fim dos dias, tudo haverá se consumado, para que venham novos dias dever de vir. Por eles próprios, caminhos sem ele, sem passos dele, sem alvo. Alvorada insana de insones tropas.
Quem lhe ouviu trovejar já não ouvidos e há roupas e tingimentos fortes, cada uma a um lugar. Vivência uniformizada, diz a experiência não te aventura nudo, palerma!.
Mas, ouvidos possam. Não, não podem. Não há parede, não há ouvido. Tudo é andejar dele, todo lugar é dele e dele tudo, tudo, tudo, até o que.
Capaz de cruzar a nado, capaz de chegar voando. Muita, muita a capacidade.
Ele não tremerá sequer piscará, ele não. A bala, o alerta, o parachoque. Não de luzes nem de estampido. Disso não morrerá.






René Magritte, Le Modèle Rouge

sábado, 27 de outubro de 2007

Sátiro


Estação chega

em ventos quentes,

em águas densas

de sabores fortes.


Toma a carne,

consome, voraz,

as sentinelas

dos sentidos todos.


Brota,

de todo sulco,

pendão viril...


Primavera vem no homem:

leites e saborosos sucos...

sabor-alfa do macho

entre alfazemas.





quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Elogio da sendeira sonda


Era busca o acaso.
Era campanha, missão, cruzada...
A falta de um caminho era estrada
e o silêncio, o mundo convicto de mim.

Tudo é verdade, sob escombros,
sob a escuridão sem ar. A verdade é ponta de espinho.
Desliza pelas frestas, é viajante dos sinuosos,
destruidora de coágulos e aneurismas.
Alcança e abre o caminho.



Fluindo, fulmino o descompasso.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Ambientes


Acordou e percebeu que não houvera dormido. Calmamente, sentou-se na cama e ficou a olhar os próprios pés. Muitos mistérios já haviam sido tornados em banalidades e coisas mesquinhas e nada do que precisava, àquela altura da vida, era acordar sem ter dormido.
Ainda assim, ainda calmo, bocejou, coçou as costas (bom jeito de começar o dia é coçar as costas, ouvir o croch croch das unhas importunando a pele das costas, saber que tem unhas e que consegue dosar sua força para que elas aplaquem a sede de atenção da pele, deixando não mais que um vermelho provisório. Saber também que tem costas e que essa parte do corpo lhe é fundamental como todas as outras, mas que coça, para dar a ele a sensação de que o tempo pára para ele se tocar).
Mas não houvera dormido e, assim que as costas se calaram e as unhas voltaram ao esquecimento, ele se lembrou. Não houvera dormido.Não parecia justo a ele ter sido involuntariamente privado do repouso do sono, do banho de escuridão, desapego e inexistência que o sono significa para cada um.
Foi ao banheiro, olhou-se no espelho e não tinha olheiras nem os olhos estavam vermelhos. O alto da cabeça tinha uns cabelos rebeldes, mas a cabeça sempre fora sua parte mais tumultuada, mal partilhada pelas idéias colonialistas e sempre ambiente de conflitos, genocídios e minas terrestres disfarçadas de brinquedos e borboletas.Pensou um pouco na merda, em como as coisas eram merda. Imensa merda. Bochechou a água e a espuma com que escovou os dentes, conferiu a assimetria antisseptizada da arcada e a cor carnosa das gengivas, onde os dentes mordiam famintos. "Primeiro nasceram os dentes, depois nasceu o homem". Preferia ter esporrado na cueca a ter formulado uma frase dessas, mas foi o que veio ao olhar o reflexo da boca aberta.
Ainda de pijama, foi atrás de cigarros e café, encontrando a empregada na cozinha.

"Acordou agora?"

Encheu a xícara e saiu para o pátio, onde o sol e as árvores pareciam posar para algum impressionista.
Não sabia a resposta.

...

Nas árvores, os pardais. Gente matinal, urbana e onipresente que brota do cimento. Onde há cimento há pardais. Assim como os pombos, são os primeiros sinais de que o concreto está vindo. Vêm destruir os ciclos e os equilíbrios, anunciando às normalidades dos lugares o Apocalipse. Trombetazinhas sujas e finórias da aniquilação da pureza.
O primeiro cigarro do dia me tonteia e o primeiro café me desfibrila. Amanheço pegando no tranco, entre entropias químicas. Árvores e sol. E eu, acordado do não-sono. Nessun dorma, que assim seja.
Sou o primeiro homem do mundo a acordar assim e tenho a sensação de que um grande dom me foi dado.
Ilustração: Red Eye of Mars, Susanne Iles